Sobre Luciano Herbert

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Reencontro o texto e a fotografia como se uma mão serena me guiasse ao lugar preciso no adormecido arquivo do computador. Deslocados, eu de paletó ritual e Luciano Herbert, no Centro Social Urbano(CSU) da Cidade da Esperança, Zona Oeste da cidade. Assessorávamos autoridades públicas importantes que pontificavam na inauguração de uma Central do Trabalhador, unidade de capacitação profissional e que servia café da manhã bem barato aos homens e mulheres indo ao sacrifício da luta pesada.
O ambiente, simples, fora invadido pelo séquito indomável de puxa-sacos, picaretas decretados(por eles próprios), lideranças de bairro, repórteres mal-humorados e apetrechados de telefones e códigos internáuticos. Exatamente a 6 de agosto de 2009. Propus e Luciano, no relaxado balançar de cabeça, concordou. Fomos a um pequeno jardim observar e constatar a dupla de anomalias que formávamos no circo de baba elástica e exibicionismos de escoteirinhos da nova mídia, aquela baba parida pelo caráter e consagrada pelo fantasma Nelson Rodrigues.
Quando entrei na redação da Tribuna do Norte em abril de 1988, Luciano era referência. Na editoria de Política e correspondente refinado do Jornal do Brasil, uma escola de jornalismo que se foi, sepultada pelo modelo de selfies e assassinatos do idioma que nivelaram uma profissão em que escrever bem era regra, a um balaio de egos e analfabetismo.
Luciano era um sertanejo nato e profissional. Pecador pelo princípio como rito de vida e interpretado grosseiramente, pelos obtusos em permanente procriação, pelo silêncio de sua paciência e capacidade de entender o ofício e os ossos, que do jornalismo puro restaram.
Naquele 6 de agosto, escrevi sobre nosso encontro em meu blog. Luciano leu e me ligou, introspectivo marmorial: “Gostei.” Desligou. Luciano Herbert morreu de câncer de pâncreas na sexta-feira, 16/10/15, Veneries Dies, da ordem gregoriana. Ele detestaria  o frenesi hipócrita em sua despedida. A algazarra de 6 de agosto que gerou minha tentativa de crônica, intitulada Somos Dois:
“ Só de imaginar, doem cabeça e estômago. Eu, todo vestido como um adolescente, oferecendo uma recepção em um hotel nas Ilhas Galápagos para um grupo de influentes que eu não conheço. Depois, me vejo em fotografias reluzentes, tomando champagne do mais caro com sorrisos verdadeiros como a confissão de um golpista. Hoje, os potentados assumiram a máxima de que são idiotas vestidos de criança, governados por mulheres com rosto de criança e mentalidade idiota. Eu, nunca. Sou um retraído absoluto. Se pudesse, passava décadas no meu mundo particular de cinema, livros, música, futebol, aconchego (claro), o meu cachorro e relendo o sonhado decreto da extinção dos telefones celulares pelos Estados Unidos.
Quem insistisse em descumprir a nova ordem internacional, engoliria uma bala ponto 50 ou, se preferisse, morreria num lado de areia movediça como nos filmes em preto-e-branco da TV Tupi. Ainda sou do tempo da TV Tupi e acho que fiquei perdido em algum filme de Durango Kid. Ultimamente, meu estado é tão grave que uma das diversões é assistir fantasmagóricos episódios de Vigilante Rodoviário, do tempo em que Dercy Gonçalves era uma Helena Ranaldi.
O exibicionismo é a ostensiva estampa da mediocridade. Uma das maiores vertentes da boçalidade é contar quantas viagens de avião se faz e em quantos hotéis e resorts se hospedam os bacanas. Por justiça, excluo desta relação, amigos discretos, que divulgam um destino e seguem outro exatamente para que ninguém bisbilhote sua privacidade. Outros, penduram o cartão de crédito no varal, driblam oficiais de justiça como Garrinchas e trocam de carro semestralmente, quando as financeiras reassumem os veículos não pagos. Já disse que tenho pavor a viagem longa.
Gosto do meu canto e, no máximo, visitar outros lugares de carro. Um dia, quem sabe, eu concorde que esperar oito horas em aeroporto, enfrentar turbulência, hotéis extorsivos, shoppings alienígenas, seja uma diversão sensacional. Luciano Herbert é parecido comigo. Jornalista dos bons(ele, no caso), das antigas, dos textos inesquecíveis no Jornal do Brasil, do qual foi correspondente anos e anos, com uma bolsa a tiracolo e um chinelão de couro tão presentes em seu corpo quanto um braço ou uma perna. Luciano me conta que não gosta de sair de Natal, principalmente agora que tem avião caindo demais. Naquele jeito caladão de Caicó, para onde vai religiosamente(de carro) com a família, certamente espera uma cápsula de salvamento daquelas do presidente dos Estados Unidos. Vou fundar uma associação dos caseiros. Vou ver se Luciano faz o estatuto, ele que tem muito mais paciência. Pensei que estava ficando maluco. Somos dois, então

Com a chuteira alheia

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Com a chuteira alheia, o atacante e macho alpha(dizem especialistas dos dois sexos), Cristiano Ronaldo resolveu fazer caridade mundial. Lançou campanha na internet para papagaio de pirata desvairado gozar em voracidade de liquidificador. CR7, centroavante espetacular e marqueteiro redundante, está recebendo contribuições a partir de 10 dólares(cerca de 40 reais, ou menos de 10 cervejas numa barraca de praia em Natal).

CR7 surge na pequena área de qualquer Smartfhone, sorridente e obstinado em ajudar os necessitados do Haiti, pior Índice de Desenvolvimento Humano(IDH) do continente americano e habitado por 60% de subnutridos. Espera arrecadação bilionária diante do prazer oferecido aos solidários à iniciativa.

Sacando os 10 dólares e entrando em concorrência de frenesi, um sortudo sorteado terá direito a acompanhar o artilheiro e metrossexual por 24 horas. Com tudo pago em hotel quatro estrelas, que para milionário ou metido é quase espelunca, almoço com o astro português, corte de cabelo em seu barbeiro particular e ingresso VIP para Real Madrid x Barcelona(o melhor do programa), dia 22 de novembro no Santiago Bernabéu. A chance de ver Messi estraçalhar é uma tentação.

A ação cívica de CR7 está tomando as mídias sociais e o Haiti receberá uma justa anestesia para a sua miséria que o mundo despreza. O Brasil, falido e caindo para a Série C da Crise, não está em condição de enviar seus caraminguás para ninguém, mas periguetes oficiais, dissimuladas e guapos deslumbrados atenderão militarmente ao chamado do craque, que representa para a sua seleção o que Neymar é para a farandola de Dunga : joga sozinho e acompanhado por 10 barangas. Nada como um estoque universal de selfies com CR7.

Imagino o Negão Ivanízio Ramos, fotógrafo potiguar dos bons e de uma etiqueta de cabeça de área, ganhando o prêmio com alguém financiando a aposta por ele. “Vou não! Prefiro gastar meus  40 paus tomando cerveja e comendo ginga(peixe frito) com tapioca no Bar de Pernambuco”. Fica nas Rocas, bairro com cheiro e tempero de praia.

Ivanízio – está correto-, prefereria Alberi, o Rei do ABC e de todos os nossos corações. Alberi nunca recebeu um centavo de 65 milhões de dólares, mixaria torrada por CR7 apenas num apartamento em Nova York.

Alberi fez o nome de muito centroavante e deixaria, com seus passes de mangaba, fruta dos manjares, o CR7 superavitário além do estratosférico. Assim, gastaria o dele e dignificaria o gesto sem usar a fome como jogada vulgar de gol do superego.

 

Ao pequeno sofredor do ABC

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Olá João Gabriel:

Era uma vez – e para sempre -, um clube maravilhoso, campeão e cheio de heróis vestindo preto e branco e fazendo um imenso povo feliz.

Era uma vez o ABC, nosso amor em comum. Uma história não para fazer você dormir, mergulhar nos sonhos inocentes de uma criança que comove e que  tornamos também nossa.

O ABC, João Gabriel, garoto que incorpora nosso encanto e nossa luta, nossa capacidade de jamais desistir, nasceu fruto de um reino chamado Frasqueira, formado por homens, mulheres e jovens fiéis, apaixonados e humildes.

Uma gente, João Gabriel, que não faz questão do brinquedo, gente miúda, gente grande, que carrega o ABC no coração sem um pingo de medo.

Pingo de gente, João Gabriel, tão querido, tão cativante. João Gabriel que é drible, desconcertante, que é um golaço, gigante, vibrante.

Aos 4 anos, João Gabriel, deste um exemplo de que futebol é paixão e dor. Seu pranto verdadeiro, pois da infância Deus livrou pecados e mentiras, calou fundo nas almas em sombra pela campanha terrível do ABC.

Ganhar ou perder, saberás quando crescer, é parte do jogo, é vida em peleja, mas tenha a certeza, de que o seu desabafo, lâmina de sentimento, é uma prece para tirar o ABC desse lamento.

E para o homem cansado, calejado de alma, chorar com você, é dizer: eu queria ser um craque, dando caneta e chapéu, estufando a rede e dedicando meu gol a João Gabriel.

PS. João Gabriel de Castro Supino, maravilha de menino, é apaixonado pelo ABC. Sofre de mielomeningocele e hidrocefalia, anda em cadeirinha de rodas e é um sopro de vida cada vez que aparece, faceiro, no Estádio Frasqueirão.

João Gabriel é a certeza em forma de ternura, que longe é um lugar que não existe naquele em que bate o coração alvinegro. Só um espírito de espinho não se emociona com sua tristeza flagrada pelo pai na derrota diante do Bragantino(1×3).

Profanação do menino

Aylan Kurdi, 3 anos, está sepultado. Ele, a mãe e o irmão, mortos afogados quando fugiam da perseguição de fanáticos do Estado Islâmico, milícia que arranca cabeças e usa o terror de mantra contra o “imperialismo”.

A imagem do menino morto na Grécia, após naufrágio da embarcação clandestina em que viajava, chocou o povo tão cândido.

A exploração do cadáver de Aylan, virou um ritual midiático(macabro) no mundo inteiro.

Gerou indignações verdadeiras e oportunistas.

Aylan fugia da agonia, padeceu e abusaram de sua inocência inerte.

Aylan precisa descansar.

Vi a fotografia apenas uma vez e me bastou.

Entre o ser humano e o repórter, fico com o ser humano, também por ser jornalista em desuso.

Não é minha a profissão adoradora da desgraça.

Nunca foi, nem será.

Deixem o menino morto em paz.

Paz que lhe negaram em vida.

PS. Não, claro que não republicaria a foto da criança indefesa – bombástica e bombando nas internets furiosas.

ABC quando setembro chegar

Quando entrar setembro, o ABC volta a jogar na expectativa febril de que a boa nova ande nos campos, Beto Guedes, genial mineiro dos tempos alvinegros de timaços, cantando em voz agonizante, letras de contemplação barroca.O empate contra o Criciúma, nos acréscimos por 2×2, adiou a reinauguração moral do Frasqueirão, onde já não se vence ninguém e ecoam sons de uma Torre de Babel sem nenhuma gêmea, onde a cartolagem conseguiu estabelecer recordes centenários de descompasso, descontrole e falta de pontaria nas contratações e escolhas gerenciais.

 

Não fosse a memória honrosa, 2015 seria um ano para o ABC esquecer. No jogo contra o Criciúma, comprova-se a tese de quando se está mal, o azar pega seu matulão, arranja hospedaria e engrossa o cheiro de enxofre. O ABC está numa fase de cair de costas e quebrar o nariz.

 

Jogou com esforço e o atacante Rafinha merecia a vitória. Ele e mais uns dois ou três. Rafinha marcou um golaço de artilheiro clássico e outro de goleador legítimo. Enquanto Rafael Oliveira seguia em sua inutilidade paquiderme.

 

O ABC não mereceu empatar, mas se deixou pressionar. O Criciúma empatou com um gol cruel. O ABC completou 11 jogos sem vitória e faz jus a um time inteiro que, ao longo da Série B, se viu no espelho vestido de derrota. O ambiente é fúnebre e a emoção revoltada pelo resultado de terça-feira, embora genuína, a milhas de distância está da origem da campanha catastrófica.

 

A depender dos próximos resultados da rodada , o ABC pode segurar a lanterna e se distanciar da Segundona , como o afogado da margem do rio. Aquilo que começa errado, com toques bizarros pelo meio, só pela sorte se reverte no fim. Sorte, a carta desesperada e fugitiva do carteado alvinegro.

 

Quando entrar setembro, do esquecido Beto Guedes, obra de sebos, CDs mofados e bolachões remanescentes, que o som sacro revigore o Ex-Clube do Povo. Beto Guedes é a janela lateral do ABC que ficou no gemido dos saudosistas e nas lágrimas da Frasqueira desprezada, perdida na peleja trovejante dos dirigentes preocupados numa eleição antes do principal: a sobrevivência.

 

A volta do mata-mata no país do futebol “morre-não-morre”

Antes restrita aos clubes, a discussão sobre a mudança do sistema de disputa e volta do mata-mata ao Brasileiro também conquista aliados dentro da CBF. O diretor de ética e transparência da entidade(existe o cargo, sim), Marcelo Aro, é um dos que defende abertamente a fórmula e trabalha para apresentar a seu pares um modelo que, segundo ele, torne o campeonato mais atrativo e rentável.

A princípio, mesmo sustentando o discurso de que o formato se encontra atendido pela Copa do Brasil, a resistência interna não é total.

O secretário-geral Walter Feldman não pretende tratar desse assunto no momento, no entanto.

O objetivo é debatê-lo no congresso que a CBF pretende organizar para debater o futebol nacional em janeiro.

“Estou disposto a sugerir a volta do mata-mata no Brasileiro, mas preciso primeiro que me mostrem como fazer isso de maneira viável”, afirmou Marcelo Aro, também deputado federal (PHS-MG), na última segunda-feira, durante o seminário “O Calendário do Futebol Brasileiro”, em Belo Horizonte.

Ele propõe um sistema que combine os pontos corridos ao longo de 38 rodadas com o mata-mata ao final.

O retorno do mata-mata teve o apoio do Atlético-MG durante o evento.

“Tudo na vida precisa de vibração, e o Brasileiro pode até ser um dos mais importantes campeonatos de futebol do mundo, mas ainda falta emoção”, disse o assessor da presidência alvinegro Lucas Couto.

O time alvinegro é membro da comissão de clubes que se reuniu durante o primeiro semestre com o diretor financeiro da CBF, Rogério Cabloco, para discutir, dentre outros assuntos, a fórmula do campeonato. Outros que também fazem parte são Atlético-PR, Coritiba, Flamengo, Grêmio, Santos, Sport e Vasco. Eles sinalizavam inicialmente com uma medida para diminuir a resistência à mudança: uma premiação financeira ao melhor colocado na fase de pontos corridos do campeonato.

 

Do blog: O sistema prático atual do futebol brasileiro é o morre-não-morre.

Alberi, a agonia

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Paciência. Ao quinto palavrão, digeri o analgésico moral que o realista me aplicava ao conversarmos sobre Alberi, O Soberbo, maior ídolo do ABC, em acelerado sofrimento e com dois dedos do seu abençoado pé direito amputados em decorrência da diabetes.

 

Aos 70 anos, Alberi José Ferreira Matos está prestes a perder seu estupendo instrumento de trabalho, catalisador de massas enfeitiçadas no alçapão do Estádio Juvenal Lamartine e depois na arquitetura astronáutica do Castelão(Machadão), onde, mandou, desmandou, casou, batizou e humilhou Leões, Zagallos e Zanatas no ano gracioso de 1972, sua Bola de Prata, sua coroa, sua cantata.

 

Internado em hospital público, sem plano de saúde, Alberi, pela atitude dos pragmáticos, já passou. Segundo os viúvos e gratos, é mitologia, segundo os familiares, não pode esperar. Paciência.

 

Alberi, quem mandou você nascer noutro tempo, de outros homens e poucos dinheiros? Quem culpa têm os cabeças de bagre do ABC atual( bola murcha, injusta remuneração), derrotados semanais, da tua dor aguda e da doença que o mutila na fúria com que destroçavas defesas inteiras?

 

São outros dias , são outros personagens , são outros dinheiros, são outras preocupações. São outras prioridades, são outros paradigmas, como dirão os negociantes de registradoras vorazes. O espaço que se abria em leque no corte dos seus dribles, Alberi, hoje é deles, dos sombrios, dos soturnos.

 

 

Paciência não tenho, se a vida castiga o Negão, rei das glórias dos pobres, dos gols espantosos abrindo clarões nos latifúndios gramados. Agasalha Alberi, Frasqueira, mãe, manto e clareira de um gigante em agonia e solidão.

Mendigo da escrita

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A extinção do jornal impresso onde assinei por cinco anos uma coluna significou a ruptura da obrigação prazerosa de escrever todo dia. Representava, em (muito) menor escala, a felicidade de Nilton Santos, o enciclopédico dos laterais-esquerdos, o homem que puxou Garrincha para o seu time ao ser humilhado por ele num teste.

 

Nilton Santos dizia que para ele o futebol era fazer o que gostava e ainda passar na tesouraria todo mês, receber um salário e viajar o mundo inteiro.

 

Nilton Santos morreu pobre e merecia a soma de todos os milionários enganadores do moribundo e pior que venezuelano futebol brasileiro de hoje. Aí, sim, sua alegria seria eterna em vida. Agora mesmo, Arthur Maia, um meia-esquerda com passagem pelo América, deixou o Flamengo, é o Flamengo do meia-esquerda Arthur Zico para ganhar muito dinheiro no Japão.

 

Arthur Maia fez um golaço contra um time de quarta divisão, o Globo, do interior potiguar, e alguém o comparou a Maradona. Passou mais tempo de chinelinho no Departamento Médico do que criando jogadas. Seu caso agora é de uma verdadeira sandália japonesa. Vai enganar os nipônicos e garantir aposentadoria gorda com seu desempenho de faquir dos gramados.
É fato que ando desmotivado para escrever, manter a rotina. Um blog é legal, é moderno, é estar antenado, mas é muito mais para o factual do que para o analítico, sobrevivência do papel no jornalismo. Mesmo assim, vou dedilhando quando dá na telha ou na testa.

 

É muita ou só notícia ruim. A seleção brasileira perde todas no futebol. Na Copa América, engata freguesia paraguaia. No Sub-20, sucumbe na prorrogação e no Pan-Americano, assombra com um futebol horrendo, caindo, de virada, para os uruguaios, homenagem póstuma ao carrasco Ghighia, derrota de 2×1, fracasso consumado em um minuto.

 

Meus dois times envergonham. O ABC apanha em casa. Flerta com a Zona de Rebaixamento da Série B como em todos os anos, mesmo com o discurso pernóstico de Série A dos seus manda-chuvas que só não mandam nos adversários nem contratam um jogadorzinho de nível 5,5. O Vasco virou mulher de subida de favela. Leva surra do malandro todo dia e serve de alerta para a polícia que está subindo na caçada a traficantes. O Vasco morreu.

 

Comentei algumas vezes que meu (único) sonho de consumo é ter um neto homem para conversar sobre futebol. Pobre menino. Quando vier – não há nada previsto – vai cansar de ver livros e filmes velhos. O avô, decepcionado, a contar causos e a esconder lágrimas decepcionadas vendo-o preferir videogames e computadores, filmes de ficção científica.

 

História futurista é cheia de efeitos especiais e monstros. É o próprio futebol de hoje, que afasta os meninos e os cansados de espírito, os mendigos de um drible, um golaço, um malandro de chuteira. Que cabem numa lata de Goiabada Cascão. Nem precisam vir com queijo.

No Frasqueirão, (sem) comentários

O ABC pagou mico no amistoso(0x1) contra os reservas do Corinthians, o dito Jogo do Centenário.

O torcedor não é idiota e o Frasqueirão estava com plateia de Copa RN.

Anunciaram a Mulher-Filé e Trouxeram Tião Macalé.

O ABC poderia ter passado sem o desnecessário desgaste de mais uma derrota( a 10a em casa) e uma partida com o tempero condimentado de um cavaco. Chinês da 25 de março em São Paulo.

Tudo por uma pirraça com o América.

Não se comenta o que não existe.

E pronto. Ponto.

Importante é Pimentinha, azougue do Sampaio Correia, adversário do fim de semana pela Série B.

A noite de Busatto

Da cama onde via o jogo, imaginei o pior.

O zagueiro Cléber, Clebão do América , estampa de centurião, sairia direto ao pronto-socorro do Hospital Walfredo Gurgel.

O golpe de arte marcial sofrido do seu goleiro, Busatto, seria suficiente para me deixar desacordado pelo menos até 2028.

Se não matasse, na hora.

Um lance de alucinação.

Era o segundo gol do Vasco e o segundo erro de Busatto.

O 1×0 do ex-heroico português deve-se ao estabanado e nervoso goleiro.

Surgiu de um cruzamento e a bola viajou pela pequena área, território onde, desde os primórdios do filósofo Neném Prancha, a gordinha é exclusiva do goleiro. Busatto não interceptou a jogada e o Vasco fez o primeiro.

O segundo foi a catástrofe, meio chanchada de Boca do Lixo, submundo paulistano do cinema, meio UFC.

O América diminuiu  na classe patenteada do Casca, do Cascata, cobrando pênalti em categoria debochada.

Conseguiu o improvável 2×2 em bate-rebate dramático.

Aí Busatto encerra sua ópera-bufa. Ou Buffatta.

Leva um balão da bola e permite ao Vasco, um grande clube de formol, marcar um gol fácil.

Time por time, não seria difícil o América eliminar o candidatíssimo a rebaixado Vasco.

Busatto, definitivamente um goleiro inconfiável, estragou tudo.

Nada daquela lorota que eu ouvia muito ao xingar cabeças de bagre do ABC: “Faz você! Daqui da arquibancada é fácil. Quero ver lá dentro.”

Cada um na sua.

Quem se mete a jogador profissional, tem que ser literal na ação.

Goleiro, então, não tem direito de errar.

“Por muito menos, Dida Pompeu,

tomou um frango e mesmo

vivo, sofrido, morreu”.

Dida Pompeu falhou na decisão contra o Potiguar em 2013 e foi execrado no América.