"Quem perdoa o mal, é pior."(eu).

LUIZ IGNÁCIO, O SEM-TÚMULO - 26.08.2010

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Uma das vantagens de quem já foi ou é repórter de Polícia é conhecer o mundo pelas telas da vida real e conviver com a violência sendo discreto narrador de suas causas, dores e conseqüências. Ser repórter de Polícia é aprender que a tragédia também comete suas ternuras.

Ser repórter de Polícia é adquirir um olhar crônico e crítico sobre os seres humanos de verdade, que não conseguem se enxergar iguais sequer na única condição em que um não pode subjugar, dominar ou humilhar o outro : Na morte. O choro de subúrbio, de favela, o berro de pavor e dor pode parecer mais indiscreto que o suplício por um cadáver de cobertura imponente, mas a inutilidade dos que ficam é uma só.

Uma das vantagens de quem já foi ou é repórter de Polícia, embora no meu tempo de repórter houvesse menos constrangimento em se revelar setorista de cadeia, é conservar fontes que o tempo não apaga como uma borracha casual de livraria.

Longe das redações, mas sem deixar de ser repórter o que eu não sei se é virtude ou doença, procurei alguns meses passados uma das fontes que mais me ajudou quando iniciante na profissão: Um dono de funerária. Era com ele que eu checava informações completas sobre vítimas fatais de crimes que a polícia nem sempre apurava com a precisão necessária.

É da casa mortuária que saem os dados oficiais para sepultamento. Mude-se tudo, menos as informações legais de um morto, sua identidade é a última dignidade antes da sepultura.

O meu velho amigo me confirmava, com voz em baixo tom, como nas noites em que nos falávamos, cada qual em sua missão, para me confirmar o que um post tuiteiro divulgava, sem tanta convicção.

Era sim, Dona Odette Roselli Garcia Maranhão, a ocupante da capela 1 do centro de velório. Para surpresa dos dois homens sem idade e com exemplos para não se espantar com mais nada, o corpo de Dona Odette era velado por apenas duas pessoas para sepultamento no dia seguinte, de manhã cedo. Corri aos blogs, aos portais. Nada, ninguém noticiara a morte de Dona Odette.

Eu entrei numa cruzada desesperada e inútil pelo próprio twitter anunciando em repetidas inserções que havia morrido uma heroína da esperança, a viúva da liberdade, a mulher de Luiz Ignácio Maranhão Filho, preso político desaparecido para nunca mais e morto por uma injeção capaz de matar um cavalo de 500 quilos.

Pecado de Luiz Maranhão, jornalista, professor, deputado e seguidor dos pensamentos de Nietzsche: Ser um comunista de idéias diferentes às de um regime sem idéias, baseado na delação e na repressão para impor o seu poder.

Eu também não fui ao velório de Odette Maranhão. Preferi guardá-la na memória de uma entrevista feita em 1994(30 anos de Ditadura), quando ela continuava a esperar o companheiro chegar ao portão, tarde caindo, como a mãe de Totó, inutilmente, aguardava o marido morto na Guerra.

A diferença entre ambas é que a mãe de Totó era personagem de um filme belíssimo, chamado Cinema Paradiso. Odette, acometida de uma saudade a asfixiá-la de amor e angústia.

A Assembléia Legislativa e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República acabam de prestar uma legítima homenagem a Luiz Ignácio Maranhão Filho com a inauguração de um memorial para que dele reste alguma lembrança física.

Luiz Ignácio, o Maranhão Filho, continua desaparecido, embora o Estado estabelecido, em 1996, emitisse a sua certidão de óbito. Um colaborador espontâneo, por isto tão covarde quanto os seus assassinos, confessara à revista Veja os requintes sádicos da morte do idealista potiguar.

Há injustiças que o destino arquiteta, para que não possamos acreditar no poder de Deus, dizem adeptos de tantas crenças.

Luiz, o Santo Ateu, perfeito na definição da sua biógrafa Heloneida Studart, não teve direito a um preceito sagrado do cristianismo: Um túmulo, para dividir com Odette. Poderia ser o mesmo do irmão, Djalma, que de melancolia morreu, também perseguido e retirado de um mandato de prefeito de Natal confiado pelo seu povo.

Luiz Ignácio Maranhão não tem nem terá lápide, cova, mausoléu ou epitáfio em mármore. Ele é tão grande que em qualquer tempo do verbo pode estar em todo lugar, ao contrário dos seus algozes, mascarados pela eternidade das consciências apodrecidas.

RAPOSAS E MOCINHAS DO TELEMARKETING - 12.08.2010

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De tanto ler sobre políticos mineiros, vou me entregando à conclusão de que uma boa conversa é a solução de qualquer drama ou trama. As raposas, de modo algum, sinceras, preferiam encontros secretos, cheios de cavilação e conchavos, mas deles saía algum resultado prático, mesmo que alguém no final se ferrasse. Nem que a versão fosse mais importante que o fato, como ensinaram às gerações bem menos talentosas.

Benedito Valadares, José Maria Alkmin, Magalhães Pinto, Tancredo Neves e JK detestavam telefonemas. No máximo, se permitiam a telegramas monossilábicos: “Amanhã encontro 11 hs local de sempre pt saudações”. O lugar nem era o habitual e o horário quase sempre era outro. Assim se enganavam e assim resolviam suas arestas sem berros nem arrotos arrogantes.

Há histórias deliciosas desta especialidade de homem público e privado que já não existe. Benedito Valadares encontrou Alkmin no aeroporto de Belo Horizonte e perguntou para onde ele estava indo: “Para Brasília”. Alkmin se distancia para o saguão e Valadares chama o motorista que levava sua bagagem: “O Alkmin está dizendo que vai para Brasília para eu pensar que ele vai ao Rio. Mas ele vai é para Brasília mesmo.” Só cobra criada.

Era o tempo deles, que detestavam corriolas de bajuladores dando maus conselhos, brigando entre si, elogiando a granel, porque puxa-saco de verdade tem que agradar melosamente. E intrigar o rival junto ao chefe ou a chefe. Não, com os mineiros que dominaram a política nacional tudo era no cochicho, na surdina, mas ao vivo.

Imagino águias como eles eram , procurando uma informação pelo serviço de telemarketing. Jamais. Ou atendendo instruções de mocinhas tão impessoais que parecem ter sido feitas de gelo. “Aguarde um momento, senhor, o senhor vai ter que pagar mesmo, senhor, houve um erro, o senhor paga e na próxima conta será descontado o equivalente”.

É um discurso ritual o das mocinhas. Em comum com as raposas políticas de Minas Gerais, há o fato de que elas não perdem uma. A esperteza imbatível. Eu nunca consegui resolver nada com essa turma. Elas são astuciosas virtuais, eletrônicas, que matam pela impaciência, ao nos fazer esperar 40, 50 minutos, uma hora ao telefone para dizer que a gente deve procurar o atendimento personalizado. Onde se espera mais umas duas horas, sentado, se houver cadeira.

E quando telefonam à nossa casa, oferecendo cartão de crédito? Aquela forca plástica em que o sujeito vai usando até vender as cuecas para pagar os juros ou se entregar a agiotas para quitar o mínimo da fatura? As mocinhas sempre me oferecem um bônus que no final eu pago. É incrível, convencem judeu a reconhecer a Palestina.

Acho que, ao desligar, elas ficam tirando sarro da nossa cara, do nosso sotaque, da nossa vontade de mandá-las à Faixa de Gaza ou ao Complexo de Favelas do Alemão. Só encontrei as raposas mineiras como antítese. Seria impossível, por exemplo, Magalhães Pinto dizendo a Tancredo pelo celular: “Se você quer meu apoio, digite um, se quer o de Benedito, tecle dois, se não quiser o de nenhum e for conspirar com Juscelino, aperte estrela ou quadrado.”

Telemarketing de celular e cartão de crédito é um saco. Um pé no saco, que me desculpem as mocinhas feitas de gelo.

VENCER NEM SEMPRE É EXTRAVASAR - 02.08.2010

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A supremacia do escritor, do mero recolhedor de palavras, está na cumplicidade da madrugada. Quando qualquer ruído é um pássaro cantando, um carro passando ligeiro querendo Deus que o seu motorista chegue vivo à sua cama.

Até menos por ele, mais por aqueles que o esperam, aflitos, desligados quando o toque da porta aciona a sensação indescritível do alívio. Seja pai, seja mãe, e saberás o quanto é aflitiva a angústia de um filho aguardado para o seu e o sono dele.

Os meus dedos pedem o teclado e o meu desejo é de tocá-los, sem que exista qualquer ansiedade ou loucura, tentação ou usura. Eu quero escrever porque quero e disso faço a liberdade que nada ou ninguém me impede. Escrevo porque é disso que vivo ou, mais ainda, do que resisto e do que me alimento e aos meus, sustento.

Tenho a companhia das lições de Antônio Maria, cronista que me faz chorar quando em mim algo de criança ainda eu reencontro, nos textos tristes e pungentes que ele e Dolores Duran escreveram para Paulo Gracindo, pai, e Clara, límpida e cristalina Nunes, dizer, com tamanha ou mais genialidade em Brasileiro Profissão Esperança, repertório de todo saudosista que existir e persistir.

Falta-me apenas o velho Voz de Ouro sintonizado na Rádio Globo para ouvir Adelzon Alves, o amigo da madrugada, repassando ao Brasil dramas cotidianos, sambas suaves sem traços de batucada, cartas lidas como confissões abertas de amores e dissabores passionais. Assim eu avançava pela noite, quando menino, na faixa 1220. AM.

É a madrugada como velha parceira, sem que dela, se espere, passagem ligeira, para que a alegria furtiva caia no conta-gotas da felicidade dos que exprimem o sentimento como um fruto de doce sabor. O fim de uma madrugada e o dia amanhecendo compõem as formas e o sumo de uma maçã que permanece intocada, porque, de novo Maria, é quando dormem que as boas pessoas parecem menos com os mortos.

Escrevo enquanto o silêncio da casa me agasalha e não há barulho interno, a não ser o do meu coração que bate num compasso cadenciado, próximo do passo dos meus raros triunfos. Acostumei-me a saborear minhas vitórias como que um sozinho, um caminhante, um homem em silencioso monólogo construído pelas circunstâncias que vão mexendo com o meu peito.

Vou escrevendo e o dia vai ficando da cor de um azul tímido, despertando e espreguiçando como se desdenhasse da sua própria missão de clarear, acalorar, ficar cinzento, escurecer e madrugar, até que outro se digne a sentar e escrever.

A madrugada pede uma velha Olivetti, Lettera 32, mas aí eu me contradiria, atrapalharia o sono dos que nada têm com a pulsação mais forte que sinto na contradição dos relaxamentos.

Escrevo pois não dormi e não por nenhum problema. Enquanto cantam os pardais, secundários, esquecidos em sua prece despertadora, quase um lamento de existência, dedilho me perguntando onde está minha euforia.

Minha explosão de força e grito, se antes que a madrugada me convocasse à mesa dormente, eu não tivesse conseguido um prêmio que para a justiça interior, precisava há cinco anos. A vitória do meu time de futsal, algo tão banal neste mundo de planilhas e amizades feitas e finalizadas ao sabor das conveniências.

A tranqüilidade da madrugada, eu espero, justifique a minha sensação, serena como o vento que sopra, o que define, por certo, a vitória que me faz tão bem e que não havia vindo antes. E, mais ainda, explique porque já não consigo extravasar.

LIÇÕES SERTANEJAS - 22.07.2010

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O sertanejo é tão valente que até na desgraça encontra razão para lutar. Repórter novo, lá fui eu à Região da Tromba do Elefante(Alto Oeste), que enfrentava uma seca terrível. Comecei pela caixa de ressonância de qualquer lugarejo, o bar, a mercearia, a bodega.

E ouvi do homem calejado no rosto e na alma o que jamais esqueci quando volto para aqueles lados, também por razões afetivas. “Aqui tá tão seco, meu filho, mas tão seco,que verde mesmo só papagaio, óculos ray-ban e pano de sinuca”. E no velho rádio, sons emitidos por Sivuca, lamentos repetidos por Gonzagão.

Nunca escutei outra definição mais completa sobre o sofrimento, a escassez, o martírio, “a precisão”, no dizer lá dos homens do campo. Vendo imagens que conhecia apenas em fotografias de Sebastião Salgado retratando Canudos, entendi que é na necessidade que ressurge a pessoa.

Numa observação inversa e menos emocional, é na carência que prepondera o baixo padrão. Se cair o nível de qualquer atividade, é porque a renovação inexistiu. A vaga vai existir, então, que os piores ocupem se já não há os virtuosos.

Assistindo ao Campeonato Brasileiro, vou alimentando a convicção de que Petkovic do Flamengo é um sério candidato a craque da competição. No caso, seria bicampeão porque em 2009 já foi ele o número 1. Seu raciocínio privilegiado, seus dribles, seus toques recheados de veneno na bola e o seu Quociente de Inteligência estão muito acima do padrão atual dos jogadores em atividade no país.

Pet, aos 38 anos, faz provar a antiga regra dos craques, de no campo, quem tem que correr é a bola. Não há motivo para suar, se há superioridade intelectual. Vai durar um bom tempo para que brotem talentos movidos a categoria, alimentados pelo combustível da improvisação nas horas de aperto. Cafu, dias atrás, aos 40 anos, participou de uma pelada com Lionel Messi e demonstrou fôlego e alguma técnica que impressionaram o argentino que deveria ter nascido por aqui.

Em outro rachão,mais recente, o sambista Diogo Nogueira fez um gol à Zico, driblando curto e tocando no ângulo do goleiro. Messi, que também estava lá, Rivellino e Falcão, o do futsal, aplaudiram. Todos habilidosos como Diogo, ex-boleiro que carrega nas tintas do sangue o jeito de lidar com a bola e com a música, herança do pai João Nogueira.

Por causa da arte patenteada, Pet e Ganso, do Santos, são os mais sérios candidatos a craque de um campeonato que parece a ponta de estoque da correria e da marcação como fundamento principal.

Homens que, quando meninos, foram instruídos por velhos cabeças-de-bagre que os treinaram em campos sintéticos, de futebol soçaite, em que jogam sete e nos quais não há faixa intermediária, meio-campo, apenas defesa e ataque, portanto não se treinam passes, apenas chutões e carrinhos.

A derrota na Copa vai mudar o desenho humano do jogador e cabeças arejadas irão soltar os times à frente. É a esperança. A mesma que move o sertanejo que resiste às secas implacáveis pela força de sua fé.

A CIÊNCIA DE SABER OUVIR - 18.07.2010

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Saber ouvir é uma ciência criada pelas raposas humanas. Tomando o seu cafezinho no Palácio da Liberdade, de estilo neoclássico e imponente pelos seus lustres seculares, o então governador de Minas Gerais, Tancredo Neves não se impressiona com a ansiedade do assessor que entra esbaforido no gabinete.

Tancredo Neves despacha com um dos seus conselheiros políticos, dos quais não aplicava nenhuma solução apontada, porque o melhor conselheiro dele foi ele, e o jovem oficial-de-gabinete informa sôfrego, que um deputado aliado bandeara-se à oposição alegando desprestígio em seus redutos.

O auxiliar que sentava à mesa com o governador, estica o seu suspensório e repreende o rapaz que chegara à beira de um infarto com o que considerava novidade: “Dr. Tancredo Neves já sabe de todos os detalhes, todos os deputados de nossa base já falaram com ele e não precisa você atrapalhar o despacho agora”.

Tancredo, sem um músculo facial em contração, levanta-se, abraça o moço e reprime, sorriso de esfinge, o mais antigo: “Fale meu filho, conte-me o que você sabe, conte-me tudo sobre esse assunto, nos seus mínimos pormenores”.

O moço toma fôlego, olha com ar vitorioso para o colega censurado pelo olhar da raposa mineira e abre a ladainha durante longos minutos. “Muito obrigado, meu filho, você não sabe a colaboração que deu ao Governo que confia em seu trabalho”. Nem precisa contar que foi aos saltos que o aprendiz de bajulador saiu do encontro.

O conselheiro político não se deu por vencido: “Governador, eu não entendo, esse rapaz contou tudo mais ou menos do mesmo jeito que eu e outros 20”.

Foi a levantada para Tancredo Neves cortar: “Meu amigo, ouvir é tão importante quanto viver. Você falou que ele disse mais ou menos a mesma coisa. Então, mais ou menos não é a mesma coisa. Nunca diga que já sabe tudo sobre qualquer assunto. Ouça todas as versões que nenhuma é rigorosamente igual. Juntando-se as peças, se sabe o que é versão e o que é verdade”.

Quanto mais velho, mais se observa a necessidade de se escutar as pessoas. Recentemente fui ao estádio e após a partida, parei para conversar com alguns conhecidos. Que foram se irritando com torcedores que me paravam para perguntar o que eu achava da atuação de jogador tal ou qual. Eu dei atenção a cada um e de cada um, ainda que dos mais entusiasmados pela cerveja e a vitória, veio algo de positivo.

Aprendi e só o tempo ensina – menos aos prepotentes de placenta -, que os mais simples têm na voz a sua única fonte de integração. Que falem, vamos escutar. A voz deles sempre é o eco da razão. Da verdade.

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